Mundo Imperfeito: Sangra-Me O Coração - POEMA: Fernando Pessoa - EXPLICADO.
Na primeira parte do poema de Fernando Pessoa, o poeta expressa sua visão trágica e desencantada da existência, marcada pela dor, impotência e percepção de um mundo injusto e indiferente. Vamos analisar cada estrofe:
Primeira Estrofe.
Sangra-me o coração. Tudo que pensoA emoção mo tomou. Sofro esta mágoa
Que é o mundo imoral, regrado e imenso,
No qual o bem é só como um incenso
Que cerca a vida, como a terra a água.
Significado:
O poeta começa declarando a dor intensa que sente, representada pelo "coração que sangra". Essa dor está ligada não apenas às emoções, mas também aos seus pensamentos e reflexões.
Ele descreve o mundo como "imoral, regrado e imenso", indicando uma contradição entre a ordem aparente ("regrado") e a falta de ética e sentido ("imoral").
O bem, em sua visão, é comparado a um "incenso" — algo efêmero, delicado e superficial, que apenas "cerca a vida" sem realmente preenchê-la, assim como a terra rodeia a água sem integrá-la completamente.
Segunda Estrofe.
Todos os dias, oiça ou veja, dãoMisérias, males, injustiças — quanto
Pode afligir o estéril coração.
E todo anseio pelo bem é vão,
E a vontade tão vã como é o pranto.
Significado:
Aqui, Pessoa observa que o sofrimento, a injustiça e as misérias são constantes e diários, seja no que ele ouve ou vê ao seu redor.Ele descreve o "coração estéril" como incapaz de produzir algo que alivie ou transforme essas dores. Isso pode refletir tanto a impotência individual diante do sofrimento do mundo quanto a falta de propósito em tentar encontrar sentido nele.
O anseio pelo bem e a vontade de agir são descritos como "vãos", comparados ao pranto — algo que expressa dor, mas que não traz resultados práticos ou mudança.
Interpretação Geral.
Nesta introdução, Fernando Pessoa apresenta uma visão profundamente pessimista e introspectiva. Ele reflete sobre a dor existencial, a impotência diante das injustiças do mundo e a fragilidade dos ideais de bondade e justiça.O tom melancólico e desiludido estabelece o tema central do poema: a luta interna do ser humano em compreender e lidar com a contradição entre o desejo de significado e a realidade aparentemente caótica e insensível do mundo. É uma meditação sobre a fragilidade da condição humana, marcada pela consciência da dor e pela busca de um bem que parece inalcançável.
O texto é de Fernando Pessoa, e pertence ao conjunto de poemas filosóficos e metafísicos que exploram questões existenciais, o problema do mal, o papel de Deus na criação e a condição humana no mundo. Vamos explorar o significado de cada estrofe, parágrafo por parágrafo:
Primeira Estrofe.
Que Deus duplo nos pôs na alma sensívelAo mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?
Significado:
Aqui, Pessoa reflete sobre a dualidade da existência humana, onde o "Deus duplo" representa a coexistência de forças opostas: o conhecimento do mal como algo inerente ao mundo e o desejo pelo bem, que parece inalcançável.
O "mal é a norma" sugere que o mal está profundamente enraizado na natureza do mundo, enquanto o "bem" é uma aspiração que nunca se concretiza plenamente no ser humano ("inútil nível").
A estrofe expressa a tragédia de termos consciência dessa dicotomia, mas não conseguirmos resolvê-la.
Segunda Estrofe.
Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço —
O mundo fluido, com seu tempo e espaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?
Significado:
Pessoa questiona o ato de criação do universo. Ele usa a metáfora de um "invisível Geómetra" para se referir a Deus ou a uma força criadora que deu forma ao caos do mundo ("mar de mau sargaço").
A criação é vista como uma obra regida por esquemas e medidas ("fria esquadria e vão compasso"), mas que não consegue eliminar a imperfeição.
Há um tom de dúvida quanto à própria origem do criador: "Que ele mesmo não sabe quem criou" — uma sugestão de que o criador pode não ser plenamente consciente ou responsável por sua criação.
Terceira Estrofe.
Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.
Significado:
Pessoa aborda a ideia de que, na manifestação divina no mundo material ("descida de Deus ao ser"), o mal ganhou uma forma concreta e se tornou dominante ("teve alma e azo").
O bem, representado como "justiça espiritual da vida", perdeu seu significado original e foi substituído por valores deturpados ("bens obscuros") ou eventos aleatórios ("fórmulas do acaso").
Há uma crítica à desordem moral e espiritual do mundo, onde o acaso parece governar em vez de uma justiça divina.
Quarta Estrofe.
Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?
Significado:
Pessoa especula sobre a criação do universo como um "plano extinto", algo que foi abandonado antes de ser completado.
Ele descreve o mundo como "norma e desmazelo", uma combinação de regras imperfeitas e desordem.
A questão "mundo imperfeito, porque foi erguido?" reflete o paradoxo da existência de um mundo cheio de falhas, criado por uma entidade supostamente perfeita.
O "templo inconcluído" simboliza a humanidade ou o universo, uma obra incompleta que não podemos finalizar porque nos falta o "segredo" ou o conhecimento necessário para aperfeiçoá-la.
Interpretação Geral.
Fernando Pessoa, em tom profundamente metafísico, levanta questões sobre o problema do mal, o sentido da criação divina e a condição humana em um mundo imperfeito. Ele reflete sobre a tragédia de um universo onde o mal prevalece, o bem é inalcançável e a criação parece ser uma obra incompleta. O poema é permeado por dúvidas e questionamentos, mas sem respostas definitivas, espelhando a inquietação filosófica que caracteriza sua obra.Essa última parte do poema de Fernando Pessoa aprofunda ainda mais a reflexão sobre a condição humana, a relação entre Deus e o mundo, e o papel do "Verbo" (ou Logos) como meio de redenção. Vamos analisar cada estrofe:
Primeira Estrofe.
O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas está perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.
Significado:
Pessoa apresenta o mundo como "Deus que é morto", uma ideia que remete ao conceito de que Deus se manifesta no mundo material, mas de forma limitada e imperfeita. Essa "morte" de Deus simboliza a perda de sua plenitude divina ao se tornar o mundo físico.A alma humana reflete a morte de Deus e a tentativa de compreender essa condição ("reflectiu a morte e a exumação").
O "selo perdido" representa a ruptura entre Deus e a humanidade, um pacto que foi quebrado na queda do homem ("o vivo que caiu"), evocando uma conexão com o mito do pecado original.
Segunda Estrofe.
Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu —
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça —
A nova vida do que já morreu.
Significado:
A alma, vivendo na sombra e na desgraça da condição humana, sente a necessidade de buscar o que foi perdido (a conexão com o divino).O poema sugere que a busca não é pela alma em si, mas por entender e transcender a "morte" que a envolve — a mortalidade e a separação espiritual do divino.
Essa busca culmina no "Verbo", que aqui simboliza a palavra divina, a manifestação de Deus antes da criação do mundo material. No Verbo, a alma encontra "fé e graça", ou seja, a redenção e a possibilidade de uma nova vida espiritual.
Terceira Estrofe.
Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.
Significado:
Pessoa explora o conceito do Verbo como a essência divina anterior à criação do mundo físico. O "Verbo" é Deus em sua forma pura, antes de se "matar" para criar o mundo.A "morte" que tornou Deus o mundo material é associada à corrupção e ao mal que permeiam a existência.
No entanto, o Verbo também é o "Deus terceiro", aquele que possibilita a redenção. A alma, ao encontrar o Verbo, retorna à sua origem divina e ao "Bem que é o seu fundo" — sua essência mais profunda e verdadeira.
Interpretação Geral.
Nesta última parte, Pessoa desenvolve uma visão complexa e metafísica sobre a criação, a condição humana e a possibilidade de redenção. O mundo material é visto como uma consequência da "morte" de Deus, enquanto a alma humana carrega em si a busca por reencontrar sua conexão com o divino.O "Verbo" é central como meio de reconciliação: ele é tanto a origem divina quanto o caminho para a transcendência. A mensagem final sugere que, ao retornar ao Verbo, a alma pode encontrar a redenção e superar as limitações do mundo material. O poema reflete um profundo senso de tragédia e esperança, um equilíbrio entre a consciência da falha universal e a possibilidade de transcendê-la.
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